A montanha-russa chamada Alopecia Areata
Às vezes desafiadora, a Alopecia Areata precisa ser desmistificada. Vem entender um pouco mais sobre essa doença comigo.

Alopecia deriva do grego alopekia. Sua origem faz referência à palavra alopex (raposa) fazendo analogia com a troca de pelo sazonal desses animais.
Nem toda queda de cabelo recebe o nome de alopecia. Mas sempre explico aos meus pacientes que esse termo, ainda assim, é considerado 'genérico' por nós, especialistas. Para entendermos de qual doença se trata, o nome alopecia precisa sempre vir acompanhado do seu sobrenome.
Quando falamos de Alopecia Areata (AA) nos referimos a uma doença que, para ocorrer, apresenta a soma de alguns fatores: influência da própria imunidade + suscetibilidade genética + gatilhos ambientais.
Quando iniciada, ocorre um 'ataque imunológico' aos fios anágenos (aqueles que estão em fase de crescimento - vou falar do nosso ciclo capilar em uma próxima postagem). Esses fios se localizam profundamente no couro cabeludo, e como meio de tentar escapar da inflamação, eles se direcionam à superfície e caem. Após a queda, eles não conseguem voltar a crescer enquanto a inflamação persistir.
A doença tem diversas apresentações clínicas. Mais usualmente, o paciente apresenta uma placa única (área sem cabelo), de pequena ou média dimensão, que repila naturalmente em até 12 meses (ou antes, se tratada). Esses pacientes têm um prognóstico excelente! Eventualmente, podem ter novos episódios com o passar dos anos e ao longo da vida, mas, em geral, seguindo o mesmo padrão.
Daí, vem o termo 'montanha-russa', com os altos e baixos do processo inflamatório, como é na vida e na AA.
E os outros padrões de acometimento? Existem alguns quadros considerados do moderados a graves. Alguns critérios nos fazem prever ou pressupor como o paciente irá evoluir, dentre eles: idade de início da doença; duração do episódio atual (> 12 meses? > 8 anos?); padrão de acometimento (placas? de rápida progressão? ofiásica? etc - esse último citado se refere a um padrão específico que acomete a linha de implantação do cabelo, como se fora uma faixa), acometimento de áreas extrafaciais (sobrancelha? cílios? pelos corporais?). O seu médico tricologista é o profissional mais capacitado para orientar você sobre esse prognóstico e lhe trazer tranquilidade. Então, não se desespere!
E se o meu caso for grave? Hoje em dia evoluímos (e muito) no tratamento de casos extensos. Algumas medicações sistêmicas têm trazido melhoras importantes e chance real de retorno dos fios aos pacientes. Porém, é muito importante também informarmos aos pacientes que, mesmo com as medicações contínuas e o crescimento total do cabelo, a montanha-russa sempre tenderá a existir, e podem ocorrer períodos de 'surto' com o surgimento de placas localizadas. Nesses casos, podemos associar medicações ou fazer tratamentos localizados. Isso não significa que o remédio não deu ou não está dando certo, na realizada, apenas expõe como é o comportamento dessa doença, desafiador.
...e essa foi a nossa conversa inicial sobre AA, aproveitando que setembro é o Alopecia Areata Awareness month, e que recebi o retorno de uma paciente esse mês com uma apresentação menos frequente (comentei sobre isso no meu instagram @rebecca_dermato), não quis perder a oportunidade de falar sobre o assunto.
Fico à disposição para qualquer dúvida, e seguem as minhas referências abaixo :)
Referências:
King BA, Senna MM, Ohyama M, Tosti A, Sinclair RD, Ball S, et al. Defining Severity in Alopecia Areata: Current Perspectives and a Multidimensional Framework. Dermatol Ther (Heidelb). 2022 Apr;12(4):825–34.
Moussa A, Bennett M, Group ASAMI Consensus Survey Study, et al. The Alopecia Areata Severity and Morbidity Index (ASAMI) Study. JAMA Dermatol. 2024;160(3).
Ramos PM, Anzai A, Duque-Estrada B, Melo DF, Sternberg F, Santos LDN, et al. Consensus of the Brazilian Society of Dermatology for the treatment of alopecia areata. An Bras Dermatol. 2020;95 Suppl 1:39-51.