24 de setembro de 2026

Corte químico e fragilidade dos fios, o que há por trás?

Uma das coisas mais indesejáveis que pode ocorrer com o cabelo de alguém é o corte químico. Afinal, os procedimentos que fazemos nos fios sempre tem como por objetivo valorizar a nossa beleza e ressaltar a nossa própria identidade. O que causa fragilidade nos fios e por que a quebra ocorre? Vem aprender mais sobre o assunto.

Corte químico e fragilidade dos fios, o que há por trás?

Para falarmos de dano, primeiro precisamos falar sobre o fio. Nosso cabelo é composto por: proteína (80/85%) + água (10/13%) + lipídios (1/6%) + pigmento de melanina (até 5%).

A principal proteína é chamada queratina e junção de diversas moléculas de queratina garantem: elasticidade, flexibilidade e resistência à tração, além de serem responsáveis pelo formato/estrutura do fio. Também temos uma camada mais externa "coberta" por gordura (lipídios), que é chamada cutícula. Ela garante proteção contra agressões físicas e químicas, evita a perda de água, é responsável pelo brilho, penteabilidade, maciez ao toque e controle de frizz.

Ao falarmos de dano, ele pode vir de diversas formas: exposição à radiação vinda do Sol (sim! a mesma radiação que danifica a pele, danifica o fio também), exposição a fontes térmicas (secador, chapinha), tintura, descoloração e alisamentos.

A descoloração (feita sempre que queremos fazer luzes ou deixar nossos cabelos em tons mais claros do que são originalmente) é um dos processos que mais agridem os fios. Ela busca oxidar a melanina presente no interior do fio (localizado no córtex), para isso são usados primeiro produtos que "abrem" a cutícula e depois a água oxigenada em maiores concentrações (que é efetivamente o clareador).

Embora não seja o objetivo, esse processo acaba também destruindo queratina e cada fio perde cerca de 2-3% do peso. Isso resulta em um aspecto mais "poroso" do cabelo (como se houvesse com buracos no seu interior). Quando a descoloração "passa do ponto", o fio ganha aspecto emborrachado, perde resistência mecânica, estica excessivamente, e ao ser solto fica ondulado ou rompe. Evoluindo, irrevessívelmente, para corte químico. A barreira lipídica muitas vezes é perdida porque o produto usado para abrir a cutícula "destrói" esse componente do fio. Com isso o cabelo: perda a sua capacidade de repelir a água e como por consequência: fica pesado no banho (demora para secar), já que puxa muita água mas também não consegue retê-la (cronicamente seco), difícil para pentear, quebradiço e áspero, embaraçando com mais facilidade.

A maior parte dos alisamento feitos no Brasil (apesar de não permitidos oficialmente) viram formol ao serem aquecidos (as famosas progressivas, botox, selagem...). E porque até hoje eles são utilizados? Muitas vezes são os que mantem maior resultado (reduz a quantidade de alisamentos ao ano) e são compatíveis com descoloração e tintura. Outros tipos de alisamento podem ser completamente incompatíveis e gerar quebra do fio logo que aplicado. Além disso se a paciente faz um tipo de alisamento, muda de salão, e acaba fazendo outro tipo de alisamento (SOS), eles também podem ser incompatíveis entre si e gerar quebra. Em síntese, todos os alisamentos consomem massa proteíca e reduzem a tensão necessária para quebrar a haste capilar.

Os secadores e as pranchas também não são inocentes, eles expõem o cabelo a altas temperaturas. As chapinhas por aquecerem muito, causam o consumo de massa proteica do fio. Já o secador, aparentemente o dano esta mais associado a cutícula. A secagem natural também propicia danos â barreira lipídica do fio (vou explicar no final como contornar isso).

Certo, certo... agora depois de muitas explicações vamos para as orientações finais de como ajudar vocês a reduzirem, no máximo possível, os dados aos seus cabelos e também a algumas recomendações de cuidados:

  1. Se forem descolorir, façam teste de mecha antes! Para ver o quanto o seu cabelo tolera ser descolorido, se necessário façam a descoloração em etapas e tentem descolorir o mínimo possível (mais conservador >>> melhor)

  2. Exagerem nos óleos umectantes para repor um pouco a proteção lipídica perdida com o processo

  3. Espassem o máximo possível a descoloração e evitem outros danos (fonte térmica, alisamento, tração em excesso)

  4. Cabelos fragilizados exigem: escovas adaptadas que quebram menos os fios ao desembaraçar (opções com cerdas flexíveis em geral são associadas a menor quebra)

  5. Se o seu cabelo for liso, prefira resembaraçar após a secagem usando creme para pentear; se forem muito cacheados a melhor opção é desembaraçar-los ainda úmidos com bastante creme

  6. Toalha de micro fibra ajuda a secar sem fazer tanto atrito (<< quebra)

  7. Evite torcer o cabelo na toalha, evitar prende-lo com muita tração

  8. Fronha de travesseiro e liga de cabelo de cetim causam menos quebra

  9. Sempre que possível evitar pranchas, destas as de cerâmica distribuem melhor o calor do que as de alumínio e são consideradas "menos piores"

Plus sobre o secador: hoje já sabemos que o mais saudável para o fio é secar o cabelo com temperatura controlada (cerca de 47oC) (secadores como Dyson e Shark tem essa capacidade), em movimento, distando 10-15 cm do couro cabeludo. E pasmem isso é mais saudável para o couro cabeludo/também pra o fio do que deixá-los secar naturalmente!

Podem entrar em contato pelo Instagram @rebecca_dermato sempre que tiveram dúvidas ou curiosidades sobre algum assunto que publico aqui. Espero ter ajudado!

Referências:

  1. Bloch LD, Goshiyama AM, Dario MF, Escudeiro CC, Sarruf FD, Velasco MVR, et al. Chemical and physical treatments damage Caucasian and Afro-ethnic hair fibre: analytical and image assays. JEADV. 2019 Jun 25.

  2. Lee Y, Kim YD, Hyun HJ, Pi LQ, Jin X, Lee WS. Hair shaft damage from heat and drying time of hair dryer. Ann Dermatol. 2011 Nov;23(4):455-462.